Sem-título #1

Era mais um dia comum na minha vida.
O dia estava lindo, mas infelizmente eu não tinha ninguém para compartilhá-lo comigo.
Estava sentindo mais sono do que de costume, depois de ter varado a noite acordado mais uma vez.
Eu estava saindo de casa para ir até o meu psiquiatra.
Não gostava de ir lá, mas eu precisava do remédio para viver.
Andava a passos largos e pesados, pensando nas coisas que haviam acontecido na minha vida. Coisas mais ruins do que realmente boas, para ser sincero.
Não tive uma vida muito feliz. Não tive uma infância agradável.
Chegando em uma esquina, fui abordado por um cara em uma moto. Ele apontou uma pistola para mim.

—”Passa o celular, arrombado! Anda logo! Carteira e relógio também!”

Eu calmamente passei o celular. Não fazia muita diferença para mim já que eu não tinha porquê viver, de qualquer forma. Vivia por obrigação, um dia atrás do outro.
Quando eu ia chegando até minha carteira, um carro passou por nós, e o bandido acabou atirando em mim pelo susto. Acertou bem no meu tórax.
Cai de costas no chão. A carteira caiu do meu lado. O bandido fugiu sem levá-la.
Por algum motivo, ainda estava consciente. Ainda que por alguns segundos, consegui dizer umas últimas palavras.

—”Bem, pelo menos eu vou poder dormir um pouco agora.”
Ninguém ouviu isso.

Acordei novamente, ao lado de uma garota usando uma camisa branca.

—”Hey, como vai?”, disse ela.
Eu estava confuso, mas logo percebi o aglomerado de gente em volta do meu corpo. Eu estava um pouco afastado dele, porém.

—”Eu estou… vivo?”, perguntei.
—”Infelizmente não. Você morreu faz alguns minutos, com um tiro que varou seu peito”, ela complementou.
—”Oh. Finalmente aconteceu.”, eu disse.

Eu olhei ao redor e percebi o buraco que a bala havia feito. Não doía. Aliás, nada mais doía, a não ser o meu coração.

—”Como se chama? Eu me chamo Evy.”
—”Napoleão. Eu sou um fantasma?”, perguntei.
—”Mais ou menos. Você na verdade é um espírito ligado ao mundo, para ser mais exata.”, respondeu Evy.
—”Eu sou um dos arcanjos que veio lhe oferecer uma vaga no céu.”, complementou.
—”Mas eu não sou uma boa pessoa.”, falei.
—”Isso cabe a Deus decidir, e Ele me disse que você é digno de sua graça, logo, digno do céu. Por isso eu estou aqui.”, ela respondeu, com um tom gracioso.
—”Então o céu e o inferno existem?”, perguntei.
—”O inferno foi algo inventado pelas igrejas para arrecadar dinheiro com indulgências. Na verdade, somente o céu e o mundo dos vivos existem.”, respondeu Evy.
—”E para onde vão as pessoas más?”, perguntei novamente.
—”Por não serem dignas da graça de Deus, elas vagam pelo mundo ou deixam de existir. A escolha é somente delas.”, disse Evy.
—”Eu tenho a opção de deixar de existir?”, perguntei uma última vez.
—”Como uma pessoa digna da graça de Deus, você tem o dever de ser acolhido por Ele e louvá-lo pela eternidade.”, disse Evy.

Eu olhei fixamente para ela por alguns segundos, depois saí andando.

—”Hey, para onde está indo?”, perguntou Evy.
—”Não sei. Eu não tenho mais casa para voltar. Estou morto.”, respondi.
—”Mas e quanto ao seu dever?”, perguntou Evy, aborrecida.
—”Eu não cumpri nem com meus deveres com aqueles que se importavam comigo. Não vou cumprir dever algum com alguém que nem ao menos se dispôs a me ajudar.”, respondi.

Percebi que ainda estava com os meus cigarros no meu bolso do casaco. Acendi um.
Eu achava que ia conseguir escapar dos meus problemas morrendo, mas mesmo assim não param de me empurrar deveres aos quais eu não tenho interesse em cumprir.

Não posso ser indiferente nem depois de morto. Que saco.

5 de novembro de 2018 às 7:38

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